Quando a ansiedade vira doença?
As constantes mudanças ocorridas no mundo e as pressões atuais vêm afetando diretamente a vida das pessoas e desencadeando a ansiedade. Precisamos compreender a ansiedade sendo parte da herança biológica das pessoas, tratando-se de uma resposta normal e comum na vida de todos, sendo até mesmo importante para a sobrevivência e adaptação do ser humano. Entretanto, pode ocorrer uma evolução configurando transtorno mental, causando sofrimento psíquico e prejuízos funcionais para a sua vida pessoal e profissional.
O advento da globalização, o avanço da tecnologia e as inovações do mundo moderno ensejaram, como consequência direta, o aumento das exigências, das expectativas e das pressões existentes sobre o ser humano, fazendo com que o indivíduo tenha dificuldades para adaptar o seu comportamento a este novo panorama que se apresenta (Sadock, Sadock & Ruiz, 2017).
A ansiedade patológica surge de uma inquietação e de uma preocupação desproporcional à situação ou ameaça, originando-se com intensidade e duração consideráveis, acarretando sofrimento e prejuízos de ordem funcional, organizacional e social (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5, 2014).
Ademais, as expectativas das pessoas em relação ao conforto material também foram impactadas em função da produção de uma nova identidade consumidora, sendo reforçada constantemente pela publicidade na televisão, nas rádios e mídias sociais, que tanto induzem as pessoas a adquirirem seus produtos e serviços, como preconizam a busca desenfreada por um padrão de beleza e de felicidade inalcançável (Leahy, 2011).
Assim, o ser humano, devido às exigências do mundo moderno, vem enfrentando dificuldades para ajustar suas respostas emocionais ao seu cotidiano. Deste modo, esta conjuntura tem contribuído para uma disfuncionalidade: físico, social e psicológico do indivíduo, o que vem acarretando um acréscimo significativo no número de pessoas portadoras de algum problema mental, notadamente de distúrbios de ansiedade.
Para o especialista do assunto Leahy (2011, p.12) “vivemos na Era da Ansiedade” e em poucos anos esse sentimento irá ultrapassar os índices de depressão. Ainda, segundo este autor, a ansiedade é uma doença real e duradoura que apresenta consequências significativas, afetando a saúde e a qualidade de vida, comprometendo o cotidiano das pessoas, bem como, incapacitando os sujeitos de trabalharem de modo eficaz, ter uma vida social ou manter relações estáveis.
Os transtornos de ansiedade, consoante Zamignani e Banaco (2005), caracterizam-se pela existência de quatro componentes sintomáticos: emocionais, cognitivos, fisiológicos e comportamentais. No aspecto emocional e cognitivo, o indivíduo pode manifestar sensação de medo, sentimento de insegurança, antecipação apreensiva e pensamento catastrófico, bem como, aumento do período de vigília ou alerta.
Do ponto de vista fisiológico, a ansiedade é um estado de funcionamento cerebral que acarreta sintomas neurovegetativos, tais como, insônia, taquicardia, palidez, aumento da respiração, tensão muscular, tremor, tontura, desconforto gastrointestinal, dentre uma série de outras condições (Zamignani & Banaco, 2005; Leahy, 2011).
Ainda, no que diz respeito às preocupações decorrentes dos transtornos ansiosos, o autor Leahy (2011) destaca que a pessoa acometida pela ansiedade tem a sensação que a sua mente opera 24 horas, todos os dias da semana, não oferecendo descanso nem mesmo no momento de sono, nas situações de lazer e em ocasiões de relaxamento. Vale considerar que, embora, o sujeito esteja passando por momentos de alegrias e conquistas em sua vida, a ansiedade o perturba constantemente, com preocupações oriundas de acontecimentos do passado e sobre o seu futuro, ensejando que o sujeito tenha dificuldades para se concentrar no “aqui e agora”.
É necessário, inicialmente, a realização de uma avaliação psicológica para que posteriormente possa ser desenvolvido o planejamento terapêutico adequado e específico para cada paciente. É por mim considerado a utilização de estratégias comportamentais e cognitivas na resolução dos problemas expostos pelo paciente, dentre outros recursos, dentro de uma perspectiva voltada às abordagens integrativas e conforme cada pessoa e caso.
O tratamento psicoterapêutico tem por objetivo o trabalho colaborativo entre terapeuta e paciente, auxiliando-o a administrar e não a eliminar completamente o sentimento de ansiedade, visto que tal meta é inatingível, pois este sentimento faz parte da nossa herança biológica.
O bem-estar pessoal e nas relações é um dos nossos principais objetivos!
Camila Chamone
CRP 12/22735
